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Bambu – Guilherme Korte – Nova fibra ao sertão produtivo

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Bambu – Guilherme Korte – Nova fibra ao sertão produtivo

10/08/2016 – A Dona Niloca corta bambu desde criança. Ainda abre o bambu para fazer a esteira. Sua cozinha hoje tem parede feita com a esteira do bambu. O galinheiro do vizinho é cercado com ripas de bambu. Seus filhos percorreram o caminho tradicional dos filhos do sertão, saindo dos confins das gerais afora pelo caminho do desenvolvimento, a desejada melhora da qualidade de vida. Voltaram para a terra de onde saíram com 15 anos de idade.

A terra proporciona qualidade de vida, um teto sem aluguel, energia barata, água farta, silêncio, segurança e tranquilidade. Não sabem para onde vai o bambu e o que fazem com eles. São milhares de varas por ano. Da última carga, parte vai para filtros de água a mais de mil quilômetros de distancia, outra para bicicletas, outra carvão e construção rural.

Seus antepassados faziam as cercas para o gado não invadir a roça, com touceiras de bambu. As carreiras de Bambuzais seguem por quilômetros em linha. Eram os córregos, as valas e os bambuzais. Naquele Quilombo era assim, o bambu ainda lá hoje está. A tecnologia chega.

Na mesma época em que seus antepassados se embrenhavam nas curvas do Rio Ribeira, em Iguape, um artigo do Jornal a “Província de São Paulo” de 30 de abril de 1876 propagava seu potencial para a fabricação de Papel. O Sr. Thomas Routledge publicara “ Bambu, considerado como matéria-prima para fazer papel”. A brochura fora feita em papel de bambu e enviada para jornais de Londres, na Inglaterra. Produziu na Ford Paper Mill, com métodos para dissolver fibras vegetais e suprir a demanda de papeis, até então feitos com trapos de panos. De bambus cultivados no Royal Botanical Garden em Kew, a oeste de Londres, produziu o papel da brochura em questão.

A indústria da impressão de jornais e livros se multiplicou e causaram por rebote, grandes mudanças no campo espanhol. Na época o capim “esparto” era a matéria prima do papel. Mas nativo em áreas do Rei, a submissão dos camponeses diminuiu, causando reestruturação agrária. O capim era arrancado com as raízes, o que causou o aumento do preço e quase a extinção da gramínea.

Thomas relata anos antes, em 1872 a dificuldade em estabelecer a produção com uma matéria prima de logística viável, empacotamento e embarque mecanizável e produtividade e fornecimento constante. Analisou desde folha de milho, palha de arroz, trigo, aveia, centeio, canabis, juta, plátano, agave, aloe, fibra de palma, de abacaxi, pita, junco e crotalária entre outras plantas.  Mesmo mesclada com resíduos têxteis o problema era crônico, não havia fornecimento constante e abundante, a logística de embarque até o navio era para um material leve, o processo de secagem custoso e lucro dos atravessadores até a porta da fábrica oneroso.

O ocidente necessitava de fibras vegetais para chegar na qualidade do papel do Oriente, embora não branqueada e sem o acabamento do exigente mercado europeu. Thomas então reduziu suas escolhas a dois materiais. Um deles o resíduo das Usinas Canavieiras nas colônias. Mas novamente a logística e a fermentação do bagaço inviabilizavam a operação. Chegou então ao Bambu, um velho conhecido dos fabricantes de papel com um novo método de fabricação.  “Poderia ter ido direto ao Bom e Velho Bambu”, imortalizou Thomas Routledge em seu estudo sobre o potencial da gramínea gigante na fabricação de papel.

Ao ser cultivado onde outras culturas não o são, um plantio colhe-se por anos, crescimento rápido, produtividade imbatível. A fibra e suas nuances conhecida até a gráfica por chineses, japoneses e indianos, espécies e processos inclusos.  Entre as características das fibras vegetais conhecidas para a produção de polpa e papel, Reutledge já recomendava a compra por parte das indústrias de papel de produtos em fardos pré-processados na região de origem da matéria prima, para então ser embarcado no navio.

Em fevereiro de 1932, a Secretaria da Agricultura de São Paulo publicou no Jornal “O Estado de São Paulo”, na página 6, uma recomendação para o plantio de bambu, informando as espécies Bambusa arundinacea; Bambusa polymorpha; Bambusa tulda; Bambusa vulgaris; Bambusa quadrangularis; Melocana bambuseoides; Cephalostachum pergracile; como promissoras à produção de celulose, com o intuito de abastecer o mercado nacional de polpa para papel, devido ao “aumento assustador” do consumo da celulose.

No início dos anos sessenta, o Brasil possuía 80 empresas produzindo cerca de 500 mil toneladas de papel de 41 tipos diferentes, alcançando a autossuficiência para embalagens, revistas e livros. O papel-jornal era grande parte, importado. Utilizavam o bambu para complemento da massa celulósica.

Com a evolução e aprimoramento da produção do eucalipto, o Brasil tornou-se dos maiores do mundo no setor de celulose. Nos Estados Unidos da América, empresas estão mesclando a celulose do bambu com polpas diversas para o tissue paper, entre outras. Devido às características da fibra, permite maior elasticidade à polpa e por isso mais absorção por centímetro quadrado. Demonstraram interesse em adquirir do Brasil. “O Brasil fornece parte do bolo, por que não o bolo todo”, perguntou um dos interessados em uma reunião num alto prédio nas vizinhanças de Wall Street, tempos atrás. Terras, sol e chuva.

O sol nasce cedo no sertão brasileiro. O orvalho permite o produtor rural enxergar longe e quando o “Bruto” olha para um agronegócio, o mundo treme.

Plantio mecanizado. Colheita mecanizada. Familiaridade com a espécie. Em breve, mudas de propagação in vitro de diversas espécies. Entouceirantes e alastrantes à escolha. Resistente e persistente. Florescimento médio espaçado por décadas. Espécies distintas conforme a pluviosidade, acima de mil milímetros anuais.

Altamente sofisticado, um complexo de empresas especializadas em colheita, transformação básica e sofisticada, entre painéis, pisos, vigas e movelaria, viscose da celulose, utensílios de mesa e cozinha, indústria de máquinas processadores da fibra, alimentos, extratos químicos, carvão e vinagre se forma em torno do Bambual. Para todas as partes um processo industrial.  Uma gramínea, não age como tal,  afigura uma árvore, não é. A frase marca a entrada do Museu do Bambu da China.

Um dos setores que mais cresce com sua fibra é a indústria têxtil. Iniciaram há menos de vinte anos e hoje o faturamento já chega a quatro bilhões de reais, sim R$ 4 bilhões de reais anuais, somente em Anji, na Província de Zhejiang. O mercado brasileiro importa do gigante asiático milhões de dólares em fibras têxteis da viscose de bambu. A polêmica sobre o tema deve-se a pouca informação disponível. Obter tecidos com a viscose do bambu ainda é um importante benefício ambiental: plantar bambu ao invés do algodão significa menos irrigação e por suposto, menos consumo de água e energia, e mais terras sobram para produzir alimento.

O bambu não precisa de aplicações de agroquímicos que são absolutamente necessários nas plantações de algodão, reduz-se a poluição da água e do solo. Hoje ainda não é possível, segundo Hans Friederich, Diretor Geral da Rede Internacional do Bambu e Rattan, – INBAR, produzir um tecido puro de bambu, mas com a velocidade e o investimento em andamento na China e outros países, não será surpresa aparecer uma solução num futuro próximo, disse Hans de sua sede, em Beijing.

O pequeno município de Guangde, com 510 mil habitantes, situado na Província de Anhui, possui uma área de 27.000 hectares com bambu Mossô, o Phyllostachys pubecen, representando 35% da sua cobertura florestal. Eles cortam cerca de 7 milhões de colmos por ano, um manejo anual sustentável de menos de 10% da floresta para abastecer 188 bambuzerias locais. O faturamento em 2014 foi o equivalente a 95 milhões de reais, sendo R$ 65 milhões ficando para a indústria. Exportam 3 milhões de dólares anuais de produtos feitos com esta matéria prima. Outro município, já na Província de Fujian tem 422 mil hectares de área e 318 mil hectares destes são destinados a florestas. Quase 23% são cobertos de bambu, também Mossô totalizando 69 mil hectares.

Nessa floresta de bambu estão 187 milhões de colmos, com produção de 2.697 colmos por hectare na média. Uma produtividade alta para a China. Exportou 15 mil toneladas de brotos de bambu envasados. Naquele município de Jianou colhe-se 9,6 milhões de colmos anualmente, cerca de 192 mil toneladas. A colheita de colmos representa menos de 10% do total.  O rendimento equivalente a R$ 3.600,00 por hectare de bambu ao agricultor chinês naquele ano. A indústria local faturou o que seriam hoje R$ 235 milhões de reais, sendo R$ 71 milhões de lucro liquido anual distribuídos na cadeia produtiva local, segundo a  Agencia de Administração Florestal da China.

O Acre, estado brasileiro da região norte possui uma das maiores reservas de bambu nativo do mundo.  São mais de 4 milhões de hectares de florestas com bambu. O município de Sena Madureira possui mais de 200 mil hectares com esta gramínea entrelaçada nas matas. Diversas espécies presentes. Um mapeamento do potencial da fibra está em preparação, organizado pela Fundação de Tecnologia do Acre – FUNTAC.

Visitantes empresários voam ao estado para conhecer de perto o Diamante Verde sustentável e ecologicamente amigo do morador do entorno. Suas populações ainda assustam quando vem um perguntando sobre a espinhuda taboca. Popularmente existem a taboquinha com até 4 cm de diâmetro, Guadua weberbaueri a taboca com diâmetro entre 5 e 8 cm, Guadua sarcocarpa e o bambu bravo com mais de 9 cm de grossura. Esse e outros ainda estão em estudos para receber a nomenclatura cientifica adequada.

Uma união incomum no Brasil, da EMBRAPA, do SEBRAE, da Secretaria de Ciência e Tecnologia,  Secretaria da Agricultura, a Fundação de Tecnologia do Acre, a Universidade Federal do Acre com apoio do governo de Tião Viana-PT, no segundo mandato, vem aos poucos convencendo o tradicional povo da floresta e os chegantes do sul a não só manejarem seus bambuzais de forma sustentável mas também incentivando seu plantio nas áreas desmatadas em sistemas agroflorestais.

“O processamento do Bambu do Acre deve ser feito no Acre”, segundo o governador Tião. Hoje o desmatamento e o fogo ainda é o destino de parte dos tabocais. Para reverter esse processo, a introdução de novas espécies de bambu com maior produtividade e sem espinhos, para o consorcio com o açaí, a seringueira, a castanha, o mamão, o cupuaçu, no sistema de agrofloresta é parte das pesquisas que a EMBRAPA desenvolve.

Segundo o Dr. Eufran Amaral, o primeiro acreano a comandar a EMBRAPA do Acre, esta é a forma adequada para o manejo da Amazônia, manter o homem no campo com alta tecnologia e produtividade. Com uma pluviosidade acima dos 1.900 mm anuais, muita fibra pode gerar muita prosperidade, inclusive energia elétrica complementar ao linhão da Eletronorte.

A implantação de um hectare de bambu no Brasil chega a R$ 8.000,00 em média.  Um custo de 560 milhões de reais, com carência de 7 anos e 15 anos para pagar, na linha Agricultura de Baixo Carbono pode recuperar áreas degradadas com baixo retorno econômico, em projetos de integração lavoura-pecuária-floresta, agrofloresta e conservar o solo de 69 mil hectares, tendo como base o exemplo chinês, gerar milhares de empregos e fixar o homem no campo com futuro promissor de longo prazo. Amaral estima em 200 mil hectares de pastagens degradadas, apesar de possuírem mais de 75% de cobertura original de mata virgem no Acre.

O conceito de pastagem degradada é a produtividade. Com produção igual ou acima de 16 arrobas por hectare estão em bom estado. De 5 a 8 arrobas/ha em degradação e abaixo de 4 arrobas/ha/ano estão degradadas. Nos sistemas extensivos de pastagens, a degradação ocorre na velocidade de 6% ao ano, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O Banco Mundial – World Bank cita em seu relatório do Centro de Pesquisa Florestal Internacional – CIFOR o exemplo de regiões na China, onde registrou-se um aumento de 400% em 15 anos o número de fazendeiros que recuperaram suas áreas degradadas com bambu.

No Estado de São Paulo, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento formalizou uma parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Bambu, a Universidade Mackenzie para a pesquisa, o fomento e o desenvolvimento da Cadeia Produtiva em SP para o aproveitamento de mais de 2 milhões de hectares onde o rendimento para o produtor é considerado muito baixo em comparação com o valor da terra.

Se na China o processamento de dois milhões de hectares de Bambu geram mais de US$ 30 bilhões anuais, talvez São Paulo possa gerar algo próximo, já que é dos grandes importadores da viscose, dos maiores consumidores da madeira da Amazônia, possui um parque energético ávido por biomassa sobressalente nas épocas de entressafra, mais polpa e pasta de celulose, e tecnologia possui nas suas indústrias de ponta a uma fibra nobre como essa.

Roberto Rodrigues, ex-Ministro da Agricultura acredita que o bambu é o novo ciclo de ouro do agronegócio brasileiro. Uma sombra maior para as tardes do ser tão produtivo!

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Sobre o Autor
Guilherme Korte - Bambu
Guilherme Korte - Bambu
Guilherme Korte é Plantador de Bambu, fundador e atual presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Bambu.
4Comentários
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  • Ailton C. Silva
    agosto 11, 2016 at 11:34

    Qual o espaçamento ideal para um plantio comercial de BAMBU?

  • Guilherme Korte
    agosto 15, 2016 at 10:15

    Ailton

    Conforme sua região e intenção com o plantio, as espécies e talvez um sistema agroflorestal com bambu, diversas alternativas se apresentam. Envie um email para [email protected] ou procure um engenheiro florestal, agrônomo de sua região, para informações mais precisas.

  • MJLeiner
    setembro 29, 2016 at 15:56

    Caro Guilherme
    Voltei agora da China e na cidade de Nanxiong, ao norte da provincia de Guangdong, há uma fabrica de celulose do grupo SHAONENG, e utilizam a fibra numa maquina de kraft liner e maquina de tissue. Fabricam polpa num processo kraft, sem branqueamento e fazem o cozimento de 60% eucalipto e 40% bambu. Colocam nos digestores esta mistura..

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