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A Associação Nacional de Livrarias (ANL) se fortalece com nova Presidência e Diretoria

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A Associação Nacional de Livrarias (ANL) se fortalece com nova Presidência e Diretoria

“Nossa missão é reposicionar a ANL no mapa institucional do setor, procurando os caminhos de inserção que lhe permitam dialogar em pé de igualdade tanto com o Poder Público como com as demais Entidades de classe nas áreas da produção, comercialização e mediação da leitura.”

Em sua posse, em março deste ano, o Sr. afirmou que a Associação necessita urgentemente definir qual será o discurso e o posicionamento perante o Poder Público e os demais protagonistas do setor, cobrando a cada dia posicionamentos mais claros na defesa das livrarias. Já teríamos algumas linhas definidas?

20/07/2016 – Bernardo Gurbanov – O mercado editorial tem no Poder Público seu principal cliente, no entanto, são apenas as editoras (uma minoria, diga-se de passagem) que se beneficiam da política de compra de livros por parte do governo federal, dos governos estaduais e dos municípios. Quase 40% dos livros produzidos no país são adquiridos, ou eram até o atual impasse político, por alguma instância do Poder Público.

Bernardo Gurbanov

Este fato condiciona o discurso por um motivo óbvio: ninguém quer perder seu melhor cliente. A livraria, excluída deste processo, deve reivindicar seu lugar como espaço de mediação no processo de estímulo ao hábito da leitura e, ao mesmo tempo, deve defender seu legítimo direito ao lucro, entendido como a remuneração do trabalho, na comercialização do livro.

Quais contribuições que sua experiência, de cerca de 50 anos no mercado nacional e internacional do livro, podem trazer para a ANL e seus associados?

Bernardo Gurbanov – De fato, em 2016 completo 50 anos trabalhando no âmbito da produção e comercialização do livro. Tenho dedicado boa parte do meu tempo à militância institucional, entendendo que é a partir das instituições do setor que podemos dar nossa contribuição para atingirmos patamares de civilidade melhores e consequentemente avançar na compreensão leitora e no consumo de livros.

O fenômeno da hiperconcentração, tanto na produção como na comercialização de livros, é fenômeno mundial? Teríamos como minimizar essa tendência no Brasil? Como lidar com ela?

Bernardo Gurbanov – O fenômeno da hiperconcentração é um processo econômico global que afeta todos os setores, tanto os de produção como os de comercialização e de serviços. Haja vista a situação do sistema financeiro internacional, das companhias aéreas, sem esquecer o setor de comunicações. No mundo do livro não é e nem será diferente.

O processo de hiperconcentração é, no momento, avassalador e reduzirá a cada dia que passa o número de players no mercado. Só se alcança a escala suficiente diante da redução de margens de lucro reduzindo a infraestrutura, diminuindo os recursos humanos, agregando valor ao produto e aumentando exponencialmente o faturamento. Eu arrisco dizer que é condição sine qua non para a sobrevivência das corporações.

Lidar com este processo não é fácil, mas afirmo que em primeiro lugar não deve ser entendido como uma conspiração contra os pequenos e médios empreendedores. Trata-se de um ciclo da economia mundial que necessariamente passará por mudanças e adequações. Nossa tarefa é estar de prontidão, não perder o foco e a segmentação do negócio e estar atentos às oportunidades que toda crise oferece para ativarmos nossas ações.

O Sr. acredita na aprovação e implementação da Lei do Preço Fixo, como está apresentada? Quais deverão ser as ações desenvolvidas pela ANL para que ela venha a ser aprovada e respeitada pelo setor?

Bernardo Gurbanov – O atual projeto de lei padece de algumas imprecisões. Inspirado no modelo francês de Lei do Preço Fixo, ele não prevê claramente os campos de ação de cada segmento. Precisa definir melhor quem faz o que no trajeto de produção do livro, que começa no autor e termina no leitor.

Entendo que devemos olhar com atenção as leis que regulam a indústria farmacêutica, que sem abolir a livre-concorrência hoje tem no Brasil cinco vezes mais farmácias e drogarias do que o número indicado pela OMS.  Enquanto isso, temos no Brasil cinco vezes menos do que o número indicado pela UNESCO como adequado.

A Lei do Preço Fixo sozinha bastará para que as pequenas e médias livrarias voltem a ter espaço satisfatório no mercado? Quais os principais problemas que elas enfrentam?

Bernardo Gurbanov – A hiperconcentração provocou uma mudança significativa no hábito de consumo. Criou-se a ilusão de poder conseguir tudo num único lugar e ao alcance de um clique. Na área de alimentação ocorreu o mesmo fenômeno, porém, os próprios controladores do setor de comercialização há algum tempo começaram a abrir pontos de vendas menores e nos bairros, capilarizando assim a sua chegada ao consumidor.

Não acho que a Lei do Preço Fixo, se aprovada, irá determinar este fenômeno. Alguns argumentos, como o de propiciar a bibliodiversidade, tenho a sensação de que foram superados. Acredito mais, como estratégia de sobrevivência para as pequenas e médias livrarias, na sua criatividade, sua habilidade para detectar as necessidades do seu cliente e na rápida tomada de decisões que lhe permitirão se adaptar às novas demandas.

Sim, acredito na necessidade de criarmos um mínimo de regulação legal para o setor, de modo que efetivamente possamos acabar com a concorrência predatória e com a imoralidade que leva o livreiro a perder seu cliente para seu próprio fornecedor.

O Sr. destacou em sua posse que nosso país continua com índices paupérrimos de leitura, mencionando o baixíssimo rendimento escolar medido por exames aceitos pela comunidade internacional como o PISA, e que a ANL tem de ocupar seu lugar como interlocutor do setor com o Estado. Afirmou, ainda, que não podemos continuar assistindo e dependendo das turbulências políticas, que temos de encontrar os mecanismos que permitam o avanço nas políticas e a construção de uma vez e para sempre de um país leitor. Como os livreiros devem se posicionar e agir?

Bernardo Gurbanov – Tomando consciência do seu papel como gestores de um processo civilizatório. Participando nas entidades de classe para defender em conjunto os seus interesses. Ampliando seu campo de percepção da realidade que vai muito além do balcão de atendimento ao cliente. Trocando experiências com seus pares nacionais e internacionais. Cobrando do Poder Público eficiência e resultados nas suas funções básicas, dentre elas a educação.

O Sr. defende a importância de um curso de formação de profissionais com status de pós-graduação nas carreiras de Letras, Pedagogia e/ou Biblioteconomia, aprovado pelo MEC. Como essa formação poderá agregar valor ao mercado livreiro?

Bernardo Gurbanov – A valorização da profissão só se consegue com uma formação acadêmica adequada. Profissão, aliás, que nem é reconhecida e muito menos regulamentada. Somos uma ficção. A rigor, os livreiros são fiscalmente apenas comerciantes.

Assim como as farmácias e drogarias precisam de um profissional graduado para funcionar, quem sabe um dia multiplicaremos as livrarias com profissionais devidamente habilitados para exercer esta sedutora e apaixonante atividade que eu chamo de livreiro-docente.

* Bernardo Gurbanov: é presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL) e diretor da Livraria Letraviva. É 1º vice-presidente do Grupo Iberoamericano de Editores (GIE); Membro do Colegiado do Livro, Leitura e Literatura do CNPC (Conselho Nacional de Políticas Culturais) – Ministério da Cultura (MinC) 2012-2014 / 2015-2017; Membro Suplente do Comitê Executivo do PNLL – Plano Nacional do Livro e da Leitura – Ministério da Cultura (MinC) e Ministério da Educação 2013-2015. Membro da diretoria da Câmara Brasileira do Livro (CBL) desde 1989 até 2014, foi tesoureiro do Instituto Pró-Livro (IPL), membro da Comissão Organizadora da Bienal Internacional do Livro de São Paulo entre os anos de 1992 e 2014. Palestrante em âmbito nacional e internacional em Congressos, Seminários e Feiras sobre Livros e Leitura.

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